Os Rios

Os rios e ribeiros do nordeste peninsular são ecossistemas complexos de grande biodiversidade. Ao redor desses cursos de água de pequena e média dimensão desenvolve-se, nomeadamente nos vales, uma agricultura intensiva ligada ao curso de água. Apesar desta ocupação intensiva do solo o homem praticou uma agricultura que se harmonizava com o meio. Nos pequenos e médios cursos da região de Arouca a água tinha um papel determinante na vida de todos os seres. A água destes cursos regava os prósperos campos do vale do Arda e para o seu aproveitamento foram criados pequenos diques, denominados açudes, de maneira a regar o milho, que assumiu nos últimos quinhentos anos um papel determinante na sobrevivência das populações da região. Na repartição das águas na construção das levadas dos direitos adquiridos pelas famílias surgiram uma série de normas jurídicas não escritas que eram aceites por toda a comunidade. Os consortes tratavam do arranjo das levadas e as águas eram levadas a todo o vale num respeito por regras ancestrais tacitamente aceites. Do mesmo modo se zelava pelos açudes que encoravam as águas que tocavam os rodízios dos moinhos. Neles se moía a farinha, principalmente a de milho, que era ingrediente fundamental para a confecção do pão de milho designado de broa. Dessa farinha também se alimentavam os suínos e se engordava uma das preciosidades genéticas do concelho de Arouca : a vaca de raça Arouquesa. O rio tinha pois um papel fundamental na vida da comunidade.
Esta relação do homem com o rio por ser tão natural e harmoniosa fez com que estes cursos de água de montanha conservassem até aos anos mais tardios do século vinte uma riqueza ímpar em termos de biodiversidade. Para além da riqueza cultural que gerou esta cumplicidade do homem e do rio, mantiveram-se através dos séculos centenas de espécies de animais e plantas em equilíbrio perfeito.
Junto às margens de rios como o Arda e particularmente o Urtigosa regista-se a ocorrência de muitos mamíferos, répteis e aves. Entre os mamíferos podemos registar: Lontra, Lutra lutra; a raposa, Vulpes vulpes; o javali, Sus Scrofa; a geneta, Genetta genetta; o toirão, Mustela putoris; a doninha, Mustela nivalis; o ouriço-cacheiro, Erinaceus europaeus. Entre as aves será importante salientar duas, que são características dos rios e ribeiros de montanha: o melro-de-água, Cinclus cinclus; o guarda-rios, Alcedo athis. Depois, e sem sermos exaustivos, podemos assinalar: a rola, Streptopelia turtur; o pombo torcaz, Columba palumbus;o chapim-real, Parus major;o pisco-de-peito ruivo, Erithacus rubecula;o gaio-comum, Garrulus glandarius; a pega rabuda, Pica pica; a trepadeira-azul, Sitta europea; a alvéola-amarela, Motacilla flava; a garça-real, Ardea cinerea;o gavião da Europa, Accipiter nisus; o mocho galego, Athene noctua; a coruja do mato, Strix aluco. Em relação aos répteis e anfíbios podemos assinalar, como exemplos: a cobra-de-água de colar, Natrix natrix; o sardão, Lacerta lepida; a salamandra de pintas amarelas, Salamandra salamandra; a rã verde, Rana perezi; o sapo-comum, Bufo-bufo; o tritão-de-ventre-laranja, Triturus boscai. A vegetação e a flora assumem particular exuberância na bacia hidrográfica dos rios do concelho de Arouca. Dos rios Arda e Urtigosa podemos salientar algumas espécies: o castanheiro, Castanea sativa Mill.; o carvalho-negral, Quercus pyrenaica; o amieiro, Alnus glutinosa(L.) Gaertn; o freixo, Fraxinus angustifolia Vahl; a gilbardeira, Ruscus aculeatus L; o feto-real, Osmunda regalis L.; o feto-fêmea, Atryrium filix-femina(L) Roth; o feto-macho, Dryopteris filix-mas (L.) Schott; o hipericão-do-Gerês, Hypericum androsaemum L.; o trovisco, Daphne gnidium L., etc… Dos peixes destacam-se: a truta fário, Salmo trutta L.; a boga, Chondrostoma polylepis; o escalo, Leuciscus (Squalius) cephalus L.; o barbo do norte, Barbus bocagei; a enguia, Anguilla Anguilla L.
Como já se disse nas comunidades camponesas da região de Arouca a harmonia entre o homem e o rio foi um facto de séculos. Com a chegada do século vinte, em particular a partir dos anos setenta, esse equilíbrio, que se alicerçava numa agricultura de subsistência, vem sendo alterado, fruto da mecanização agrícola, da intensificação da pesca desportiva, e da poluição das águas. A modernização da agricultura, nomeadamente a ribeirinha, tem um terrível impacto nos rios com o uso indiscriminado de pesticidas, herbicidas e adubos químicos. Do mesmo modo, e através da modificação dos hábitos de consumo, apareceu o uso sistemático de embalagens descartáveis (de plástico, metálicas, de vidro) trouxe às populações uma realidade até aí desconhecida. Os esgotos das diversas explorações agrícolas e os esgotos domésticos dos aglomerados urbanos, em crescimento, começaram a ser lançados aos rios sem qualquer tipo de tratamento. Tudo isto ocorre a par de um progressivo abandono pelas autoridades das suas funções de fiscalização e aplicação das leis; tudo isto em contradição com a profícua produção legislativa para a área ambiental. Com o surgir desta nova realidade os peixes começaram a diminuir, drasticamente, e o aumento exponencial de pescadores, sem estarem sujeitos a uma fiscalização efectiva, fez com que o mais nobres e apreciados peixes de água doce caminhasse para a extinção. De facto, para além dos problemas enunciados, a pesca sem regras, com a captura sistemática de exemplares de pequena dimensão, e o uso de meios ilegais, fez com que os efectivos se reduzissem ao mínimo.
Desta realidade vai surgir na freguesia de Rôssas, concelho de Arouca, em Agosto de 1999 o projecto UrtiArda que se propõe, delinear uma intervenção que permita salvaguardar um património cultural e ambiental riquíssimo. O nome UrtiArda surge da junção dos nomes Urtigosa e Arda, os rios que banham a freguesia, e que vão ser o eixo de uma intervenção ambiental que não se limita aos próprios rios mas a toda a complexidade natural e humana que se foi construindo em seu redor. Numa das suas primeiras intervenções a UrtiArda inicia a recuperação de dois moinhos de água tradicionais, em parceria com a Junta de Freguesia de Rôssas . Ao mesmo imprime um prospecto para dar conhecimento à população das suas intenções, resumindo, em boa parte, os pressupostos do projecto e que acaba assim: …”O objectivo último será devolver o Rio às pessoas e a este a sua riqueza original”. Ora esta devolução do rio às pessoas não podia ignorar as enormes mudanças de ordem económica e social que se verificaram no nosso país nas últimas décadas, nem recuperar muitas das formas tradicionais de cultivo da terra. Procurou-se então pôr em relevo aquilo, que por ser tão banal e próximo, escapava à maioria das pessoas. Um rio era muito mais que um fluxo de água; foi durante séculos, o sangue que deu vida aos avós dos nossos avós. Cuidar do rio era manter acesa a sua memória. De igual modo se procurou fazer ver que as árvores que o rodeavam, as ervas das margens, os animais, faziam parte do rio, tinham nomes, importância, diferenças… O rio era de todos e, de certo modo tudo e todos pertenciam ao rio.

 

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: